Raimundo Sirino
Visão geral abrangente das raças de cabras
Variedades nativas do Brasil, melhoradas e as nativas de outros países introduzidas no Brasil
I. Introdução
a) Definição de raças de cabras
As raças de cabras correspondem a grupos de animais da espécie Capra hircus Linnaeus, que compartilham características genéticas, morfológicas e produtivas semelhantes, transmitidas de geração em geração. Essas diferenças resultam de processos históricos de domesticação, adaptação ambiental e seleção dirigida pelo ser humano.
b) Importância de compreender as diferentes raças
Conhecer as raças caprinas é fundamental para orientar decisões produtivas, melhorar a eficiência econômica, garantir sustentabilidade ambiental e preservar a diversidade genética, um patrimônio estratégico para a agropecuária brasileira, especialmente no Semiárido.
c) Visão geral da estrutura do artigo
Esta matéria apresenta um panorama histórico da caprinocultura, descreve raças nativas brasileiras, raças melhoradas e raças exóticas introduzidas no país, além de propor uma análise comparativa entre esses grupos.
II. Contexto Histórico
a) Origem da domesticação de cabras
As cabras estão entre os primeiros animais domesticados pelo homem, há cerca de 10 mil anos, no Crescente Fértil (região do atual Oriente Médio). Sua rusticidade e versatilidade facilitaram a disseminação para diferentes continentes.
b) Significado histórico das raças nativas
No Brasil, as raças nativas descendem principalmente de animais trazidos pelos colonizadores europeus a partir do século XVI. Ao longo dos séculos, esses animais passaram por forte seleção natural, adaptando-se a ambientes adversos.
c) Desenvolvimento de raças melhoradas por meio de seleção genética
A partir do século XX, programas de melhoramento genético passaram a focar no aumento da produção de leite, carne e fibra, utilizando seleção artificial, cruzamentos dirigidos e, mais recentemente, ferramentas de genética molecular.
III. Raças Nativas de Cabras
a) Características das raças nativas
a.1) Características físicas
As raças nativas brasileiras apresentam porte pequeno a médio, pelagens variadas, chifres bem desenvolvidos e elevada rusticidade.
a.2) Adaptabilidade aos ambientes locais
São altamente adaptadas ao calor, à escassez hídrica e a pastagens de baixa qualidade, sendo ideais para sistemas extensivos e de base familiar.
b) Exemplos de raças nativas.
b.1) Moxotó
Origem: Nordeste brasileiro
Descrição: Pelagem clara com faixa dorsal escura
Usos: Carne e subsistência

b.2) Canindé
Origem: Nordeste
Descrição: Pelagem preta com áreas claras
Usos: Carne e adaptação ao Semiárido

b.3) Marota
Origem: Piauí e Maranhão
Descrição: Porte pequeno e alta rusticidade
Usos: Sistemas tradicionais de criação

b.4) Gurguéia
Origem: Vale do Gurguéia, Piauí.
Descrição: Pelagem predominantemente castanha com extremidades escuras; animais de porte médio.
Usos: Produção de carne e pele; extrema adaptação a longos períodos de seca.

6.5) Repartida
Origem: Nordeste brasileiro (Bahia e arredores).
Descrição: Caracterizada pela divisão nítida da pelagem: a parte anterior é escura (preta ou castanha) e a posterior é clara.
Usos: Dupla aptidão (carne e pele) em sistemas de agricultura familiar.

b.6) Serrana Azul
Origem: Região Nordeste do Brasil, com maior concentração em áreas de serra.
Descrição: Apresenta uma pelagem característica em tons acinzentados ou azulados, muitas vezes com presença de manchas; possui porte médio e grande agilidade em terrenos acidentados.
Usos: Produção de carne e pele; destaca-se pela excelente capacidade de busca de alimento em áreas de Caatinga densa e resistência a endoparasitas.

c) Importância das raças nativas na agricultura e economia locais
Essas raças sustentam milhares de pequenos produtores, garantindo segurança alimentar, renda complementar e resiliência produtiva em regiões vulneráveis.
IV. Raças Caprinas Melhoradas – incluindo as exóticas adaptdas
a) Definição e características de raças melhoradas
a.1) Produtividade aprimorada
As raças melhoradas apresentam maior produção de leite, carne ou fibra, resultado de seleção genética intensiva.
a.2) Características genéticas e considerações de saúde
Embora produtivas, exigem manejo nutricional e sanitário mais rigoroso, especialmente em ambientes tropicais.
b) Exemplos de raças melhoradas
b.1) Saanen
Origem: Suíça
Programa de melhoramento: Alta produção leiteira
Aplicações: Sistemas intensivos e semi-intensivos

b.2) Boer
Origem: África do Sul
Programa de melhoramento: Produção de carne
Aplicações: Cruzamentos industriais

b.3) Anglo-Nubiana
Origem: Inglaterra
Programa de melhoramento: Dupla aptidão
Aplicações: Produção de leite e carne

b.4) Pardo Alpina
Origem: Alpes Suíços e Franceses.
Programa de melhoramento: Foco em alta persistência de lactação.
Aplicações: Produção industrial de leite e queijos finos.

b.5) Alpina Britânica
Origem: Reino Unido.
Programa de melhoramento: Seleção para rusticidade aliada à produção leiteira em climas variados.
Aplicações: Sistemas intensivos; destaca-se pela pelagem preta com marcas brancas faciais e nos membros.

b.6) Murciana
Origem: Espanha (Região de Murcia).
Programa de melhoramento: Seleção para alta porcentagem de gordura e sólidos totais no leite.
Aplicações: Produção de derivados lácteos; excelente adaptação a regiões áridas entre as raças leiteiras europeias.

b.7) Toggenburg
Origem: Suíça (Vale de Toggenburg).
Programa de melhoramento: Uma das raças leiteiras mais antigas do mundo, selecionada pela estabilidade produtiva.
Aplicações: Produção de leite em confinamento.

b.8) Angorá
Origem: Turquia (Região de Ancara).
Programa de melhoramento: Especializada na produção de fibra (Mohair).
Aplicações: Produção têxtil de luxo; exige manejo cuidadoso contra umidade excessiva.

b.9) Savana
Origem: África do Sul.
Programa de melhoramento: Seleção natural e artificial para produção de carne em condições de campo.
Aplicações: Cruzamentos industriais para ganho de peso e resistência a ectoparasitas.

b.9) Kalahari
Origem: Deserto do Kalahari, África do Sul.
Programa de melhoramento: Foco em carcaças pesadas com coloração de pele vermelha para proteção solar.
Aplicações: Criação extensiva voltada para o mercado de carne de alta qualidade.

c) Impacto das raças melhoradas nas práticas agrícolas e na sustentabilidade
Quando bem manejadas, contribuem para aumento da produtividade e renda. Contudo, seu uso indiscriminado pode reduzir a variabilidade genética.
V. Análise Comparativa
a) Raças nativas vs. raças melhoradas: vantagens e desvantagens
Nativas: Alta resistência, menor custo, menor produtividade
Melhoradas: Alta produção, maior custo e exigência de manejo
b) Papel da diversidade genética na seleção de raças
A diversidade genética é essencial para enfrentar mudanças climáticas, doenças emergentes e garantir a sustentabilidade a longo prazo.
c) Tendências futuras no melhoramento de cabras
Integração entre raças nativas e melhoradas, uso de cruzamentos controlados e valorização de genótipos adaptados ao Semiárido.
VI. Conclusão
A diversidade das raças caprinas no Brasil, composta tanto por grupos nativos adaptados ao Semiárido quanto por linhagens exóticas de alta performance, constitui um patrimônio genético essencial para a segurança alimentar e a economia rural. Enquanto as raças nativas, como a Serrana Azul e a Gurguéia, garantem a resiliência dos sistemas produtivos em ambientes hostis devido à sua rusticidade extrema, as raças melhoradas, a exemplo da Boer e da Saanen, oferecem o teto produtivo necessário para o atendimento das demandas industriais de carne e leite. O sucesso da atividade reside, portanto, na capacidade do produtor em selecionar a genética mais adequada ao seu nível de manejo e às limitações climáticas da sua região.
Dessa forma, a integração inteligente entre o potencial produtivo e a conservação dos recursos genéticos locais é o caminho para uma caprinocultura sustentável e competitiva. O uso de cruzamentos direcionados surge como uma estratégia técnica eficaz para equilibrar o ganho de peso e a produção leiteira com a resistência a doenças e ao estresse térmico. Investir no conhecimento das particularidades de cada raça, desde as produtoras de fibras luxuosas como a Angorá até as especialistas em carcaça como a Kalahari, permite a otimização dos recursos naturais e consolida a caprinocultura como um pilar socioeconômico estratégico para o agronegócio brasileiro.
Fontes das fotos: Ciência do Leite (2026);Portal EMBRAPA (2026).; A crítica (2026); Scielo (2026) ; Coisas do Agro (2026); Portal EMBRAPA (2026); Coisas do Agro (2026); Coisas do Agro (2026); Agropecuária Conjunto Ensoado (2026); Coisas do Agro (2026); Universidade Federal do Ceará (2026); Coisas do Agro (2026); Coisas do Agro (2026); Stravaganzastravaganza.blogspot.com (2026); Universidade Federal do Ceará (2026); Universidade Federal do Ceará (2026).
VII. Referências sugeridas
EMBRAPA. Caprinos e Ovinos: aspectos zootécnicos e genéticos. Brasília, DF: Embrapa, 2021.
FAO. Domestic Animal Diversity Information System (DAD-IS). Roma: Food and Agriculture Organization of the United Nations, 2023. Disponível em: https://www.fao.org/dad-is/en/. Acesso em: 25 jan. 2026.
MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO (Brasil). Guia técnico de cabras e ovinocultura. Brasília, DF: MAPA, 2022.
RIBEIRO, M. N. Caprinocultura tropical: genética e produção. 2. ed. São Paulo: Editora da Universidade, 2019.
SILVA, J.; PEREIRA, A. R. Desempenho produtivo de cabras de raças adaptadas ao Semiárido brasileiro. Revista Brasileira de Zootecnia, Viçosa, v. 49, n. 7, p. e-2024, 2024.
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Raimundo Sirino Rodrigues Filho. Engenheiro Agrônomo, Pesquisador, Extensionista Rural e Professor Universitário. Graduado em Agronomia (UEMA); MSc. em Engenharia Agrícola – Irrigação e Drenagem (UFV) e DSc.
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