Raimundo Sirino
A encruzilhada climática: o que está em jogo nas Conferências Mundiais de meio ambiente e nas COPs
A diplomacia do clima à beira da exaustão
Enquanto ondas de calor atravessam continentes, florestas queimam no hemisfério Norte e secas severas ameaçam sistemas produtivos do Sul Global, líderes mundiais pousam em aeroportos de países-sede das chamadas Conferências das Partes (COPs), instâncias máximas da diplomacia climática. São cúpulas decisivas, concebidas para responder à maior emergência ambiental da história. Mas, passados mais de 50 anos do início da governança climática global, a pergunta que paira é inevitável: as COPs ainda são capazes de reverter o rumo do aquecimento global?
A resposta, segundo especialistas, reside em um complexo mosaico de avanços institucionais, impasses geopolíticos, promessas não cumpridas e mudanças profundas no equilíbrio de poder internacional.
Da esperança inaugural de Estocolmo ao ceticismo contemporâneo
Em 1972, a Conferência de Estocolmo inaugurou a diplomacia ambiental moderna. Pela primeira vez, a ONU reconhecia a dimensão planetária da crise ecológica. Surgia o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), encarregado de monitorar um planeta que começava a dar sinais de fadiga.
Mas foi apenas em 1992, na Cúpula da Terra, no Rio de Janeiro, que a agenda ambiental se tornou global de fato. A Rio-92 consolidou o conceito de “desenvolvimento sustentável”, estabeleceu a Convenção da Biodiversidade, a Convenção de Combate à Desertificação e, sobretudo, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), o organismo que daria origem às COPs. Estava lançada a base jurídica que sustentaria todas as negociações climáticas posteriores.
Três anos depois, em Berlim, ocorreria a primeira COP. E, em 1997, na COP-3, o mundo aprovaria o Protocolo de Kyoto, impondo metas obrigatórias de redução de emissões aos países desenvolvidos. À época, parecia um grande triunfo. Hoje, é lembrado como um acordo que, embora inovador, fracassou em conter o aumento global das emissões.
Foi somente em 2015, com o Acordo de Paris, que a diplomacia climática voltou a respirar otimismo. Na COP-21, 195 países concordaram em limitar o aquecimento global a “bem abaixo de 2°C”, com esforços para mantê-lo em 1,5°C. Paris foi saudada como vitória histórica, mas, quase uma década depois, as emissões continuam crescendo e as metas nacionais se mostram insuficientes.
O que é uma COP e como ela funciona
Uma COP não é apenas um grande encontro. Trata-se de uma máquina diplomática altamente complexa, composta por:
• plenárias oficiais;
• grupos de trabalho temáticos;
• sessões paralelas com especialistas, cientistas, empresas e ONGs;
• reuniões fechadas entre coalizões estratégicas;
• o “segmento de alto nível”, com ministros e chefes de Estado.
A dinâmica é marcada por disputas profundas: quem paga? Quem reduz mais emissões? Quem deve financiar a adaptação dos países que menos contribuíram para a crise?
As negociações costumam avançar lentamente porque representam, acima de tudo, um choque de agendas econômicas. De um lado, Estados altamente dependentes dos combustíveis fósseis; de outro, países vulneráveis que lutam por sobrevivência frente ao aumento do nível do mar, secas e tempestades extremas.
Os grandes marcos e as grandes frustrações
Kyoto (1997): uma promessa que não se cumpriu
O primeiro tratado com metas obrigatórias para os países ricos. Contudo, a ausência dos Estados Unidos e a exclusão das maiores economias emergentes limitaram seu impacto. As emissões globais continuaram a subir.
Copenhague (2009): o colapso de uma grande expectativa
Considerada por muitos como um fiasco, a COP-15 expôs de maneira explícita a incapacidade das grandes potências de chegar a um acordo ambicioso.
Paris (2015): o momento de consagração
O Acordo de Paris inovou ao permitir que cada país definisse suas próprias metas (as NDCs). Flexível, inclusivo e politicamente viável — mas também frágil. Não há sanções para quem descumpre compromissos.
As COPs mais recentes (26, 27 e 28): entre avanços pontuais e frustração estrutural
Em Glasgow (COP-26), surgiram promessas de redução gradual do carvão e do metano, mas faltou clareza operacional. No Egito (COP-27), criou-se o Fundo de Perdas e Danos, visto como vitória histórica dos países vulneráveis, embora ainda insuficientemente financiado. Em Dubai (COP-28), o debate sobre transição energética marcou o encontro, mas enfrentou forte lobby das petrolíferas.
Expectativas e tensões em torno da COP30
Local simbólico e urgência climática
Com a escolha de Belém, à beira da região amazônica, a COP30 assume um simbolismo profundo: a floresta tropical e sua relevância para o equilíbrio climático global estão no centro do palco. Pesquisadores alertam que a Amazônia está se aproximando de um “ponto de não-retorno”, rota de degradação, secas mais frequentes e impactos que ultrapassam fronteiras nacionais.
Além disso, esta edição da COP chega em um momento crítico: o mundo já pode ter ultrapassado o limite de aquecimento de 1,5 °C em relação à era pré-industrial, o que reforça a pressão por resultados concretos.
Foco na implementação mais do que na formulação
Diferente de algumas edições anteriores em que o foco estava em estabelecer novos compromissos, no Brasil espera-se que a ênfase seja na implementação, ou seja, passar das promessas à ação. O governo brasileiro e a presidência da COP30 têm repetido que esta será uma COP de execução, não apenas de declaração.
Entre os pontos centrais estão:
• apresentação de novas ou revisadas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) com metas mais ambiciosas;
• acelerar a transição energética, em particular bioenergias sustentáveis, e reforçar a proteção de florestas;
• avanços no financiamento climático, sobretudo para adaptação e para evitar perdas e danos em países vulneráveis.
Temas prioritários e “pontos de alavanca”
Entre os temas que se destacam como super-alavancas para a COP30 estão:
• Proteção e restauração florestal, especialmente da Amazônia e biomas associados;
• Transição energética justa (“just transition”) e bio-combustíveis sustentáveis, a International Renewable Energy Agency (IRENA) já sugeriu que a produção de biocombustíveis será foco relevante;
• Integração de temas ambientais com biodiversidade, desertificação e desenvolvimento sustentável, reforçando que a crise climática não está isolada;
• Governança internacional e financeiro climático: mecanismos para garantir que países vulneráveis tenham acesso a recursos e que os compromissos sejam monitorados com transparência.
Desafios logísticos e de credibilidade
Apesar das expectativas, há desafios que podem minar o resultado da conferência:
• A cidade-sede enfrenta problemas de infraestrutura, habitação e risco de participação desigual. Delegações de países em desenvolvimento e sociedade civil já expressaram preocupação com custos e acesso;
• O Brasil, apesar de apontar conquistas em energia renovável e redução de desmatamento, também carrega contradições, como o avanço de exploração de petróleo próximo à bacia amazônica, que poderiam minar sua credibilidade na liderança climática;
• A adesão efetiva: apenas uma parcela dos países atualizou suas NDCs até esta data, o que reduz o impacto potencial da COP30 se não houver firmeza nas novas metas.
O que o mundo espera (e teme)
O mundo observa esta COP com dois tipos de expectativas:
• Esperança: que a COP30 marque uma virada real, saída da zona de promessas e entrada na zona de entrega, e que o protagonismo da Amazônia e do Brasil inspire ações que se multiplicam por outros biomas e regiões vulneráveis;
• Ceticismo: que o evento resulte em mais declarações simbólicas, sem o salto quantitativo e qualitativo necessário para cumprir o objetivo de manter o aquecimento abaixo de 1,5 °C, ou pior: que acabe reforçando a percepção de que o processo multilateral está esgotado.
A geopolítica do clima: alianças frágeis, tensões persistentes
Estados Unidos e China: a dupla indispensável, porém instável
Juntos, respondem por mais de 40% das emissões globais. Quando cooperam, as negociações avançam; quando entram em conflito, tudo paralisa. A deterioração das relações sino-americanas tornou a diplomacia climática ainda mais volátil.
União Europeia: a liderança moral e regulatória
A UE é hoje o ator mais empenhado em pressionar por metas mais rígidas. Seu Pacto Verde e seus mecanismos de ajuste de carbono nas fronteiras, porém, geram atritos com países em desenvolvimento.
Países produtores de petróleo: resistência organizada
Arábia Saudita, Rússia e outros produtores utilizam seu peso econômico para frear resoluções que ameacem seus interesses.
Os países mais vulneráveis: a voz que tenta ser ouvida
Pequenos Estados insulares, como Maldivas e Tuvalu, denunciam a lentidão das negociações. Para eles, o fracasso da diplomacia climática significa literalmente o desaparecimento físico.
Por que as COPs são criticadas?
As principais críticas às COPs estão ligadas a alguns pontos, tais como:
1. Compromissos não vinculantes: sem punição, muitos países apresentam metas ambiciosas que não cumprem.
2. Financiamento insuficiente: os US$ 100 bilhões anuais prometidos aos países pobres ainda estão longe de se materializar.
3. Influxo de lobistas de combustíveis fósseis: denúncias recorrentes sobre presença crescente dessas corporações.
4. Ritmo incompatível com a ciência: relatórios do IPCC mostram que as emissões precisam cair drasticamente na próxima década — algo muito distante do atual cenário global.
5. Diplomacia exausta: especialistas alertam que o processo multilateral vive seu pior momento desde a Guerra Fria.
O impasse entre ciência e política
Os dados científicos são claros: o mundo se aproxima rapidamente do limite de 1,5°C. A temperatura já aumentou cerca de 1,2°C desde a Revolução Industrial. Ondas de calor mortais tornaram-se até 30 vezes mais prováveis. Enchentes, furacões e incêndios atingem recordes.
Mas, nas salas de negociação, o tempo político é outro, mais lento, mais cauteloso, e muitas vezes refém de interesses econômicos imediatos. A contradição entre a urgência climática e a morosidade diplomática tornou-se o símbolo desta era.
O futuro: reinvenção ou irrelevância?
Para muitos observadores, as COPs vivem um ponto de inflexão. Se não forem capazes de produzir compromissos efetivos e financiáveis, correm o risco de se tornarem rituais diplomáticos esvaziados, incapazes de responder ao maior desafio do século XXI.
Ainda assim, abandonar o multilateralismo não é uma opção. Sem cooperação entre Estados, não há solução possível para uma crise que ignora fronteiras.
A pergunta que permanece é inquietante: as COPs conseguirão se reinventar a tempo de impedir o colapso climático ou serão lembradas como uma oportunidade histórica desperdiçada?
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