Raimundo Sirino
Receituário agronômico: o documento que orienta o uso responsável de defensivos no campo
O receituário agronômico funciona como a “receita médica” da agricultura: um documento técnico obrigatório para orientar o uso seguro e eficaz de defensivos agrícolas. Ele reúne diagnóstico da lavoura, produto indicado, dose, modo de aplicação, medidas de proteção e orientações ambientais, tornando-se peça central na transição para uma agricultura mais sustentável.
O que é e por que é essencial
O receituário garante que a decisão de usar um defensivo seja técnica e contextualizada, evitando aplicações desnecessárias, reduzindo desperdícios e protegendo trabalhadores, consumidores e o meio ambiente. Também fortalece a rastreabilidade ao registrar de forma clara quem prescreveu, o que foi recomendado e em quais condições.
O que diz a legislação
A Lei nº 14.785/2023 atualizou o marco regulatório dos agrotóxicos e reforçou a obrigatoriedade do receituário para venda e uso de diversos produtos. Conselhos profissionais (como Confea/Crea) definem que a emissão é restrita a profissionais habilitados, com registro e Anotação de Responsabilidade Técnica (ART).
Quem pode emitir
A prescrição é feita principalmente por engenheiros agrônomos e engenheiros florestais registrados no Crea. Em alguns contextos, técnicos agrícolas podem ter atribuições limitadas, sempre conforme regulamentação local e supervisão adequada.
Impactos para a produção e o meio ambiente
Quando bem elaborado, o receituário:
• aumenta a eficiência do controle de pragas e doenças;
• reduz riscos ambientais e toxicológicos;
• protege solo, água e biodiversidade;
• orienta o uso correto de EPIs e o descarte de embalagens;
• previne resistência de pragas e patógenos.
Falhas na implementação, por outro lado, podem resultar em contaminação, intoxicações e ineficácia de produtos.
Exemplos práticos
• Soja com percevejo: prescrição orienta doses, horários de aplicação e rotação de princípios ativos.
• Hortaliças em transição orgânica: prioriza métodos não químicos e defensivos de menor impacto.
• Pomares perto de mananciais: define zonas de proteção e condições restritivas de aplicação.
Desafios atuais
• falta de assistência técnica em regiões remotas;
• baixa capacitação de pequenos produtores;
• fiscalização irregular;
• disputas normativas sobre atribuições profissionais.
Avanços tecnológicos
O receituário digital e as plataformas de prescrição técnica modernizam o processo, permitindo anexar fotos, mapas, assinatura eletrônica e monitoramento mais rigoroso das recomendações. A digitalização também reforça a segurança jurídica e a rastreabilidade.
Para onde estamos indo?
O receituário se consolida como ferramenta de gestão e governança do uso de defensivos. Com mais digitalização, integração a sistemas de monitoramento e políticas de mitigação de riscos, tende a se tornar peça-chave para conciliar produtividade e sustentabilidade nas próximas décadas.
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Raimundo Sirino Rodrigues Filho. Engenheiro Agrônomo, Pesquisador, Extensionista Rural e Professor Universitário. Graduado em Agronomia (UEMA); MSc. em Engenharia Agrícola – Irrigação e Drenagem (UFV) e DSc.
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