Raimundo Sirino
Em Belém, a COP30 expõe urgências climáticas e revela impasses persistentes
Conferência reúne líderes em meio a pressões internacionais por metas mais rígidas e maior ambição ambiental
Sob a sombra crescente da crise climática, a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30) transformou Belém em um centro global de negociações ambientais. O encontro, marcado por expectativas elevadas e forte pressão da comunidade científica, buscou definir rumos mais claros para evitar o agravamento do aquecimento global.
Esta matéria examina os principais temas debatidos, as tensões políticas que marcaram a conferência e o papel desempenhado pelo Brasil, que assumiu a condição de anfitrião em um momento decisivo para a diplomacia climática internacional.
Contexto histórico
Desde a COP 21, em Paris, onde foi firmado o acordo climático mais amplo e ambicioso já celebrado, as conferências anuais vêm alternando avanços moderados e retrocessos discretos. O ritmo das negociações, frequentemente limitado por divergências entre países desenvolvidos e emergentes, tornou-se alvo de críticas de pesquisadores que alertam para a insuficiência das ações adotadas.
Nesse cenário, a COP 30 assumiu contornos simbólicos por ocorrer no coração da Amazônia, uma região cuja preservação é considerada fundamental para a estabilidade climática global. A expectativa era de que o local, por si só, servisse como catalisador político.
Principais temas abordados
Os debates foram dominados por quatro eixos centrais:
• Aceleração da descarbonização global, com a pressão de vários Estados europeus para a inclusão explícita de prazos para eliminação dos combustíveis fósseis.
• Financiamento climático, novamente tema sensível, com países pobres reivindicando mecanismos mais claros para acesso aos fundos internacionais.
• Proteção das florestas tropicais, impulsionada pelo protagonismo dos países amazônicos e de nações do Sudeste Asiático.
• Transição energética justa, incluindo propostas de apoio econômico a trabalhadores afetados por mudanças no setor energético.
Especialistas presentes ressaltaram que as metas atuais, mesmo com ajustes, permanecem aquém do necessário para limitar o aquecimento a 1,5 °C.
Participação brasileira
O Brasil buscou assumir postura de liderança, apresentando novos compromissos de mitigação e reforçando o discurso de combate ao desmatamento ilegal. A delegação brasileira destacou projetos de expansão da matriz energética renovável e mecanismos aprimorados de monitoramento ambiental.
Organizações da sociedade civil, no entanto, insistiram em apontar contradições entre os anúncios e a execução das políticas, enfatizando riscos de retrocessos caso faltem recursos e fiscalização contínua. Povos indígenas e movimentos sociais da Amazônia reivindicaram maior protagonismo nos processos decisórios e criticaram a lentidão na implementação de políticas de proteção territorial.
Reações e debates
Os pronunciamentos mais contundentes vieram tanto de chefes de Estado quanto de representantes de entidades científicas. Governos elogiaram a condução das discussões, mas admitiram que o ambiente político internacional permanece fragmentado.
Organizações ambientalistas denunciaram que muitos compromissos seguem vagos ou dependentes de instrumentos financeiros pouco acessíveis. O setor privado, por sua vez, expressou apoio parcial às medidas, condicionando a adesão a garantias regulatórias mais estáveis.
Frases emblemáticas, proferidas por autores anônimos, marcaram a conferência. Dentre elas, destacamos:
• “Sem a preservação da Amazônia, nenhum pacto climático poderá ser suficiente.”
• “Promessas não reduzem emissões; políticas públicas sim.”
• “O tempo da hesitação acabou, mas ainda falta coragem.”
Resultados e compromissos
A conferência encerrou-se com a aprovação de acordos considerados progressivos, embora não revolucionários. Entre eles:
• Reforço ao Fundo de Perdas e Danos, com aportes ampliados de países desenvolvidos.
• Compromisso global de reduzir emissões em 60% até 2035, mediante revisões periódicas.
• Pacto entre países amazônicos para atingir desmatamento zero até 2030.
• Novas diretrizes de transparência para monitoramento das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs).
Os próximos anos serão determinantes para verificar a capacidade real dos países em transformar declarações públicas em ações concretas.
Conclusão
A COP 30, realizada pela primeira vez na Amazônia, reforçou a urgência de respostas coordenadas e evidenciou a distância entre metas idealizadas e políticas implementadas. As decisões tomadas em Belém constituem um avanço, mas não representam, por si só, a inflexão necessária para reverter o quadro climático global.
Resta à sociedade civil, à comunidade científica e aos governos manter a pressão política e fiscalizar o cumprimento das metas para que o legado da COP 30 não se limite ao simbolismo do local que a sediou.
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Raimundo Sirino Rodrigues Filho. Engenheiro Agrônomo, Pesquisador, Extensionista Rural e Professor Universitário. Graduado em Agronomia (UEMA); MSc. em Engenharia Agrícola – Irrigação e Drenagem (UFV) e DSc. em Agronomia – Solos e Nutrição de Plantas (UFPB).
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