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Bacabal,24/01/2026

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Raimundo Sirino

Caprinocultura no Brasil: a força dos pequenos ruminantes que sustenta o Semiárido e mira novos mercados

Resistentes à seca, versáteis na produção e cada vez mais valorizados, os caprinos deixam de ser símbolo apenas de subsistência e passam a ocupar espaço estratégico na agropecuária brasileira.

: Imagem gerada pelo autor, utilizando-se de IA – Google Gemini (2026))
Caprinocultura no Brasil: a força dos pequenos ruminantes que sustenta o Semiárido e mira novos mercados

Por décadas, a imagem do bode magro resistindo ao sol forte do Nordeste resumiu, de forma simplificada, a caprinocultura brasileira. Hoje, essa cena ainda existe, mas divide espaço com propriedades tecnificadas, produção de queijos finos, melhoramento genético e novas oportunidades de mercado. A criação de caprinos, presente em quase todo o país, ganha fôlego como alternativa econômica sustentável, especialmente para a agricultura familiar.

Segundo dados oficiais, mais de 90% do rebanho caprino nacional está concentrado no Nordeste. Estados como Bahia, Pernambuco, Piauí, Ceará e Paraíba lideram a produção. A explicação está na capacidade dos animais de se adaptarem às condições adversas do Semiárido, onde poucas espécies produtivas conseguem se manter com eficiência.

Animais adaptados ao clima e à realidade do produtor

Os caprinos apresentam vantagens claras em regiões de escassez hídrica. Consomem menos água, aproveitam melhor forragens nativas e suportam variações climáticas intensas. Para milhares de pequenos produtores, eles representam segurança alimentar e renda complementar.

“É um animal estratégico para a convivência com o Semiárido”, explica um pesquisador da área. “Além de produzir carne e leite, o caprino se adapta a sistemas de baixo custo e pode ser criado em pequenas áreas.”

Na maioria das propriedades, o sistema ainda é extensivo ou semi-intensivo, com manejo simples. No entanto, experiências de intensificação, com suplementação alimentar e controle sanitário, têm mostrado ganhos expressivos de produtividade.

Carne caprina busca espaço no prato do brasileiro

Apesar de amplamente consumida em países da África, do Oriente Médio e da Europa, a carne caprina ainda enfrenta resistência cultural no Brasil. O consumo é concentrado em regiões produtoras e em períodos festivos. Mesmo assim, o cenário começa a mudar.

Restaurantes especializados, chefs de cozinha e feiras gastronômicas têm ajudado a reposicionar o produto, destacando cortes mais macios e técnicas de preparo adequadas. A carne é magra, nutritiva e atende a um público que busca alimentos mais saudáveis.

Para o produtor, o desafio está em padronizar carcaças, melhorar o acabamento dos animais e acessar mercados formais, com inspeção sanitária.

Leite de cabra e derivados: mercado em expansão

Se a carne ainda luta por espaço, o leite de cabra avança com mais rapidez. Considerado de alta digestibilidade e indicado para pessoas com intolerância ao leite bovino, o produto vem ganhando consumidores em centros urbanos.

Queijos artesanais, iogurtes e doces de leite caprino já são encontrados em empórios, feiras especializadas e programas de compras institucionais. A agregação de valor tem sido a principal estratégia para tornar a atividade mais rentável.

“Quando o produtor transforma o leite em queijo, ele deixa de vender um produto básico e passa a trabalhar com identidade territorial e valor cultural”, avaliam técnicos de assistência rural.

Raças que contam a história do Brasil

A caprinocultura nacional reúne um patrimônio genético diversificado. Raças nativas como Moxotó, Canindé e Repartida são resultado de séculos de adaptação ao ambiente brasileiro. Elas se destacam pela rusticidade, resistência a doenças e eficiência reprodutiva.


Ao lado delas, raças exóticas especializadas, como Saanen e Anglo-Nubiana (leite) e Boer (carne), têm sido introduzidas para melhorar o desempenho produtivo. Programas de cruzamento buscam equilibrar produtividade e adaptação ao clima


Instituições de pesquisa alertam, no entanto, para a importância de conservar as raças locais, consideradas estratégicas frente às mudanças climáticas.

Tecnologia chega ao curral

Nos últimos anos, a tecnologia passou a integrar o dia a dia de muitos criadores. Manejo nutricional mais preciso, controle reprodutivo, inseminação artificial e uso de aplicativos para acompanhamento do rebanho já fazem parte da rotina de propriedades mais organizadas.

A sanidade também avançou, com programas de controle de parasitas e doenças, fator essencial para aumentar a produtividade e reduzir perdas. Mesmo assim, a assistência técnica ainda é limitada em muitas regiões, o que restringe a adoção dessas inovações.

Sustentabilidade como diferencial

A criação de caprinos é frequentemente associada à sustentabilidade. Quando bem manejados, os animais se integram a sistemas agroecológicos, contribuem para o uso racional da vegetação nativa e apresentam menor impacto ambiental em comparação a outras atividades pecuárias.

O desafio está em evitar o superpastejo, problema histórico em algumas áreas do Nordeste. A adoção de práticas como o pastejo rotacionado e o cultivo de forrageiras adaptadas tem mostrado bons resultados.

Gargalos e desafios da cadeia produtiva

Apesar do potencial, a caprinocultura brasileira ainda enfrenta entraves importantes. A informalidade na comercialização, a falta de abatedouros com inspeção, as dificuldades logísticas e a baixa organização dos produtores limitam o crescimento do setor.

Especialistas apontam que o fortalecimento de cooperativas e associações é fundamental para garantir escala, acesso a crédito e inserção em mercados mais exigentes.

Apoio público e perspectivas

Programas governamentais, ações da Embrapa, universidades e órgãos estaduais de extensão rural têm sido decisivos para o avanço da atividade. Linhas de crédito específicas e políticas voltadas à agricultura familiar também ajudam a impulsionar o setor.

O futuro da caprinocultura brasileira passa pela valorização de produtos diferenciados, pela identidade regional e pela conexão com mercados urbanos, turismo rural e gastronomia.

Mais do que símbolo de resistência, o bode brasileiro se consolida como protagonista de uma pecuária adaptada ao clima, socialmente relevante e com espaço para crescer.

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Raimundo Sirino Rodrigues Filho. Engenheiro Agrônomo, Pesquisador, Extensionista Rural e Professor Universitário. Graduado em Agronomia (UEMA); MSc. em Engenharia Agrícola – Irrigação e Drenagem (UFV) e DSc.


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