Raimundo Sirino
Solo em movimento: o desafio do uso ininterrupto por pequenos agricultores
Em cada canto do mundo rural, o solo é mais do que chão: é sustento, herança e esperança. Para milhões de pequenos agricultores, tanto no interior do Brasil quanto nas encostas do Japão ou nas planícies da China, a terra cultivável é limitada e, por isso, usada sem pausa. O uso ininterrupto do solo, prática comum entre famílias que dependem da agricultura para sobreviver, levanta uma questão urgente: como manter a produtividade sem esgotar os recursos naturais?
A rotina desses produtores, marcada por ciclos contínuos de plantio e colheita, revela uma realidade complexa. De um lado, há o conhecimento ancestral, transmitido por gerações, que ensina a respeitar e regenerar a terra. De outro, há a pressão econômica e a escassez de espaço, que muitas vezes obrigam o agricultor a plantar sem descanso. Entre práticas orientais de manejo sustentável e métodos ocidentais voltados à produtividade, o solo segue sendo o protagonista silencioso de uma história que mistura tradição, ciência e desafio.
Nesta reportagem, percorremos diferentes paisagens e culturas para entender como pequenos agricultores lidam com o uso contínuo da terra, quais são os impactos dessa prática e que soluções estão surgindo para garantir que o solo continue fértil, hoje e no futuro.
O solo como base da vida rural
A prática do uso ininterrupto do solo, comum entre agricultores familiares que dependem de cada metro quadrado para garantir o sustento, pode levar a uma série de problemas agronômicos e ambientais. A perda de matéria orgânica, a compactação, a erosão e o desequilíbrio microbiológico são apenas alguns dos sintomas de um solo que já não consegue “respirar”. E quando o solo adoece, toda a cadeia produtiva sente os efeitos.
Segundo dados da Embrapa, cerca de 70% dos solos brasileiros apresentam algum grau de degradação, especialmente em áreas de agricultura intensiva. Em países asiáticos, onde o espaço é ainda mais limitado, o desafio é semelhante, mas muitas vezes enfrentado com técnicas milenares de manejo que buscam preservar a fertilidade mesmo em condições adversas.
A diferença entre um solo saudável e um solo exaurido pode ser medida não apenas pela produtividade, mas pela resiliência da terra frente às mudanças climáticas, às pragas e às doenças. E é justamente essa resiliência que está em risco quando o uso contínuo não é acompanhado de práticas de conservação.
Nesta etapa da reportagem, mergulhamos nos fundamentos da saúde do solo e ouvimos especialistas que explicam como a biologia subterrânea, invisível aos olhos, é essencial para a vida acima da superfície. Porque, como dizem os agricultores mais antigos, “quem cuida da terra, colhe mais que frutos: colhe futuro”.
Práticas tradicionais e culturais
A forma como o solo é tratado diz muito sobre a cultura de quem o cultiva. Em diferentes partes do mundo, pequenos agricultores desenvolveram técnicas próprias para lidar com o desafio de produzir sem parar, e essas práticas refletem não apenas o conhecimento técnico, mas também valores, crenças e modos de vida.
Sabedoria oriental: cultivar com harmonia
Nos campos do Japão, da China e de outros países asiáticos, onde a terra é escassa e cada palmo tem valor, o uso intensivo do solo é uma necessidade histórica. Mas essa intensidade vem acompanhada de uma filosofia de equilíbrio. A rotação de culturas, o uso de compostos orgânicos e a integração entre lavoura e criação de animais são práticas comuns entre os agricultores orientais.
No Japão, por exemplo, o conceito de satoyama, que representa a convivência harmoniosa entre ser humano e natureza, inspira o manejo agrícola. Pequenos produtores alternam arroz, hortaliças e leguminosas em ciclos planejados, respeitando o tempo da terra. Já na China rural, o uso de biofertilizantes e técnicas de compostagem são transmitidos de geração em geração, como parte de um saber que une ciência e tradição.
Pragmatismo ocidental: produzir com eficiência
No Ocidente, especialmente em países como Brasil, Estados Unidos e partes da Europa, o pequeno agricultor também enfrenta o desafio do uso contínuo do solo, mas em contextos diferentes. Com áreas maiores e acesso variável a tecnologias, muitos produtores adotam práticas voltadas à produtividade imediata — como o uso de fertilizantes químicos e a mecanização.
No Brasil, a agricultura familiar representa cerca de 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros. Mas em muitas regiões, o cultivo contínuo de culturas como milho, feijão e mandioca, sem rotação adequada, tem levado à perda de fertilidade e ao aumento da dependência de insumos externos. Ainda assim, há iniciativas promissoras: agricultores que adotam sistemas agroecológicos, consórcios de culturas e técnicas de cobertura vegetal para proteger o solo.
Entre o saber e o fazer
Apesar das diferenças culturais, há um ponto de convergência: o reconhecimento de que o solo precisa ser cuidado para continuar produzindo. Seja pela tradição oriental de respeito à terra ou pelo pragmatismo ocidental em busca de eficiência, os pequenos agricultores estão redescobrindo práticas que conciliam produtividade com sustentabilidade.
E é nesse encontro entre culturas, saberes e experiências que surgem soluções inovadoras — muitas vezes simples, mas profundamente eficazes, para garantir que o solo continue sendo fértil, vivo e generoso.
Casos de campo
Em meio às lavouras que desenham o interior do Brasil e às pequenas propriedades que pontilham o sudeste asiático, histórias de pequenos agricultores revelam os desafios e as soluções encontradas para lidar com o uso contínuo do solo. São relatos que misturam tradição, inovação e resistência, e que ajudam a entender como a terra responde ao cuidado (ou à falta dele).
No Maranhão, o milho não para
Na zona rural de Codó, interior do Maranhão, Raimundo da Silva cultiva milho e feijão em uma área de dois hectares há mais de 20 anos. Sem recursos para deixar o solo descansar, ele planta em ciclos sucessivos, enfrentando queda na produtividade e aumento de pragas. “A terra já não é mais como antes. Preciso usar mais adubo, mais veneno”, conta. Com apoio de uma cooperativa local, Raimundo começou a testar o consórcio com crotalária e feijão guandu, plantas que ajudam a recuperar o solo. “É pouco, mas já vejo diferença. A terra parece mais viva.”
No Japão, tradição e técnica lado a lado
Em Shizuoka, no Japão, a agricultora Keiko Tanaka cultiva arroz e hortaliças em apenas meio hectare. A área é pequena, mas altamente produtiva. O segredo está na rotação de culturas e no uso de compostagem feita com resíduos da própria lavoura. “Aprendi com meu avô. Ele dizia que o solo é como um corpo: precisa de descanso e alimento”, diz Keiko. A cada safra, ela alterna os cultivos e aplica biofertilizantes naturais, mantendo a fertilidade sem recorrer a químicos. “É mais trabalho, mas é o jeito certo.”
Tecnologia no sertão pernambucano
Em Ouricuri, no sertão de Pernambuco, o jovem agricultor José Carlos adotou sensores de umidade e análise microbiológica do solo para monitorar a saúde da terra. Com apoio de um projeto de extensão rural, ele aprendeu a usar cobertura vegetal e a plantar em curvas de nível para evitar erosão. “Antes, eu só plantava e colhia. Agora, eu entendo o que a terra precisa”, afirma. A produtividade aumentou, e o solo mostra sinais de recuperação.
Na China, o saber ancestral resiste
Na província de Yunnan, a família Li cultiva chá e hortaliças em encostas íngremes há gerações. Sem acesso a máquinas, eles mantêm práticas tradicionais de terraceamento e compostagem com esterco animal. “A terra é nossa mãe”, diz o patriarca, Sr. Li. “Se a tratarmos bem, ela nos alimenta. Se a explorarmos demais, ela se vinga.” A filosofia da família é clara: cultivar com respeito e paciência.
Esses casos mostram que, apesar das diferenças geográficas e culturais, o pequeno agricultor enfrenta dilemas semelhantes. E que, com apoio técnico, troca de saberes e valorização da experiência local, é possível transformar o uso contínuo do solo em uma prática mais sustentável.
Soluções e Inovações
Se o uso ininterrupto do solo é uma realidade para milhões de pequenos agricultores, as soluções para torná-lo sustentável também estão ao alcance, muitas vezes, mais simples e acessíveis do que se imagina. A chave está em combinar conhecimento técnico com práticas adaptadas à realidade local, respeitando o tempo da terra e o saber do agricultor.
Bioinsumos e fertilidade natural
O uso de bioinsumos, como compostos orgânicos, biofertilizantes e inoculantes microbianos, tem ganhado espaço entre produtores que buscam alternativas aos insumos químicos. Além de mais baratos, esses produtos ajudam a recuperar a microbiota do solo, promovendo maior retenção de nutrientes e resistência a doenças. Em estados como Paraná e Bahia, programas de capacitação têm ensinado agricultores a produzir seus próprios bioinsumos com resíduos da propriedade.
Cobertura vegetal e adubação verde
Plantar para proteger. Essa é a lógica da cobertura vegetal, técnica que utiliza plantas como crotalária, mucuna e feijão guandu para cobrir o solo entre safras. Essas espécies ajudam a evitar erosão, melhorar a estrutura do solo e fixar nitrogênio. A adubação verde, por sua vez, permite que o solo se regenere sem deixar de produzir — uma estratégia especialmente útil para quem não pode abrir mão de nenhuma safra.
Agroflorestas e consórcios inteligentes
A integração entre árvores, culturas alimentares e pastagens — base das agroflorestas — tem se mostrado eficaz na recuperação de solos degradados. Além de diversificar a produção, esse sistema melhora a retenção de água, aumenta a biodiversidade e reduz a necessidade de insumos externos. Em regiões como o Acre e o sul da Ásia, pequenos agricultores têm adotado consórcios entre frutíferas, hortaliças e leguminosas, criando sistemas resilientes e produtivos.
Tecnologia acessível e extensão rural
Drones, sensores de umidade, aplicativos de manejo e análise de solo por imagem já não são exclusividade de grandes propriedades. Com apoio de cooperativas, universidades e ONGs, essas ferramentas estão chegando ao campo familiar, permitindo decisões mais precisas e econômicas. A extensão rural, por sua vez, continua sendo um pilar fundamental: técnicos capacitados ajudam a traduzir a ciência em prática, respeitando a cultura e os limites de cada produtor.
Essas soluções mostram que é possível produzir sem esgotar. O solo, quando bem manejado, responde com generosidade. E o pequeno agricultor, com apoio e conhecimento, pode ser o protagonista de uma agricultura mais justa, produtiva e sustentável.
Conclusão
O solo é, ao mesmo tempo, origem e destino da agricultura. Para os pequenos produtores, ele representa mais do que um recurso: é a base da vida, da cultura e da economia familiar. Mas quando usado sem pausa, sem descanso e sem cuidado, ele deixa de ser aliado e passa a exigir atenção urgente.
A reportagem mostrou que, apesar das diferenças entre práticas orientais e ocidentais, há um ponto comum: o desafio de produzir sem degradar. E também uma esperança compartilhada — a de que, com conhecimento, apoio técnico e respeito à terra, é possível transformar o uso contínuo do solo em uma prática sustentável.
Seja com bioinsumos, cobertura vegetal, consórcios agroflorestais ou tecnologias acessíveis, os caminhos existem. E estão sendo trilhados por agricultores que, mesmo diante das dificuldades, seguem cultivando não apenas alimentos, mas também soluções.
Porque no campo, como na vida, quem cuida da terra colhe mais do que frutos: colhe futuro.
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Raimundo Sirino Rodrigues Filho. Engenheiro Agrônomo, Pesquisador, Extensionista Rural e Professor Universitário. Graduado em Agronomia (UEMA); MSc. em Engenharia Agrícola – Irrigação e Drenagem (UFV) e DSc. em Agronomia – Solos e Nutrição de Plantas (UFPB).
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