Raimundo Sirino
A carne que move o Brasil: o império bilionário da pecuária e seus novos desafios
O país é o maior exportador mundial de carne bovina, mas enfrenta pressões crescentes por sustentabilidade, rastreabilidade e competitividade em um mercado cada vez mais exigente
Do pasto ao mundo
Do coração do Centro-Oeste brasileiro partem milhões de toneladas de carne bovina todos os anos, rumo a mais de 150 países. Em 2024, o Brasil consolidou-se como o maior exportador mundial do produto, com faturamento superior a US$ 13,5 bilhões, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC).
Mas, por trás dos números grandiosos, o setor convive com um paradoxo: enquanto alimenta o planeta e impulsiona a balança comercial, enfrenta um cerco crescente por parte de governos, investidores e consumidores que exigem sustentabilidade, rastreabilidade e transparência ambiental.

Raízes econômicas de um gigante
A pecuária bovina moldou a ocupação territorial do Brasil desde o século XX. O avanço sobre o Cerrado e a Amazônia legal, impulsionado pela abertura de novas fronteiras agrícolas nos anos 1970, transformou o país no segundo maior produtor mundial de carne bovina, atrás apenas dos Estados Unidos.
Hoje, a atividade gera mais de 8 milhões de empregos diretos e indiretos, movimenta cerca de 8% do PIB do agronegócio e constitui a espinha dorsal de municípios inteiros em estados como Mato Grosso, Goiás, Pará e Minas Gerais.
No campo industrial, três gigantes dominam o mercado: JBS, Marfrig e Minerva Foods, responsáveis por mais de 60% das exportações brasileiras. Essas empresas operam com margens apertadas, mas buscam vantagem competitiva em escala global por meio de certificações ambientais e integração vertical da cadeia.

De onde vem a carne do mundo (2024)

O preço ambiental da carne
Nenhum outro tema provoca tanto debate quanto o impacto ambiental da pecuária. Estimativas do MapBiomas indicam que quase 80% do desmatamento da Amazônia entre 1985 e 2022 esteve ligado à expansão de pastagens.
A emissão de gases de efeito estufa — especialmente o metano entérico — coloca o setor sob os holofotes das políticas climáticas internacionais.
Em contrapartida, iniciativas de baixo carbono começam a ganhar corpo. A Embrapa Gado de Corte destaca programas como Carne Carbono Neutro (CCN) e Carne Baixo Carbono (CBC), que combinam o manejo integrado de pastagens, o reflorestamento e o confinamento sustentável.

O desafio, porém, é de escala. Pequenos e médios produtores, que representam a maior parte do rebanho nacional, ainda carecem de acesso a crédito e tecnologia para aderir aos programas de descarbonização.

A revolução digital no campo
De cada boi abatido no Brasil, hoje é possível saber onde nasceu, onde pastou e sob quais condições ambientais viveu. Isso é resultado da corrida tecnológica que transformou a pecuária brasileira em um dos setores mais digitalizados do agronegócio.
Startups como Agrotools, Ecotrace e BovControl desenvolvem plataformas baseadas em blockchain e inteligência artificial para rastrear cada elo da cadeia produtiva. Satélites monitoram propriedades em tempo real, cruzando dados de desmatamento e uso do solo.
A meta é tornar o país referência mundial em rastreabilidade socioambiental.

O mercado consumidor e as novas tendências
Enquanto o Brasil exporta volumes recordes, o consumo interno de carne bovina vive altos e baixos. A inflação dos alimentos e a perda de poder de compra reduziram o consumo per capita de 42 kg/ano (em 2014) para 26 kg/ano (em 2024), segundo o IBGE.
No entanto, cresce o mercado de carne premium e cortes de alta qualidade, impulsionado por restaurantes e exportações diretas.
Paralelamente, proteínas alternativas começam a ocupar espaço. Marcas como Future Farm e NotCo expandem o segmento “plant-based”, enquanto startups de biotecnologia testam carnes cultivadas em laboratório.

O futuro da carne brasileira
As projeções da FAO indicam que a produção global de carne bovina crescerá 15% até 2030, e o Brasil responderá por quase 40% da expansão do comércio internacional.
Para consolidar essa posição, o país precisa unir produtividade, rastreabilidade e governança ambiental.
O avanço das tecnologias de confinamento e da integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) promete elevar a eficiência e reduzir as emissões.
Entretanto, sem políticas públicas de crédito verde e fiscalização efetiva, o risco de exclusão de pequenos produtores e perda de mercados persiste.
Conclusão
A carne bovina brasileira é, ao mesmo tempo, símbolo de poder econômico e teste de sustentabilidade.
O país domina o mercado global, mas precisará provar que é capaz de alimentar o mundo sem destruir seus ecossistemas.
A nova fronteira da pecuária não será aberta a machado, mas a satélite, blockchain e consciência ambiental.
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Raimundo Sirino Rodrigues Filho. Engenheiro Agrônomo, Pesquisador, Extensionista Rural e Professor Universitário. Graduado em Agronomia (UEMA); MSc. em Engenharia Agrícola – Irrigação e Drenagem (UFV) e DSc. em Agronomia – Solos e Nutrição de Plantas (UFPB).
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