Raimundo Sirino
Café: da base da economia imperial ao protagonismo global nas exportações brasileiras
O café, que noséculo XIX moldou a economia e a política brasileiras como o “ouro verde” doImpério e da República Velha, segue sendo um dos principais motores doagronegócio nacional. Maior produtor e exportador mundial, o Brasil aliatradição histórica e inovação tecnológica para manter a liderança global, aomesmo tempo em que enfrenta desafios crescentes: da pressão porsustentabilidade e rastreabilidade às incertezas trazidas pelas mudançasclimáticas e pela concorrência de países emergentes no mercado de cafésespeciais.
Ao longo de mais de dois séculos, o café deixou de ser apenas uma mercadoria agrícola para se tornar um dos símbolos da economia brasileira. Desde o auge no século XIX, quando sustentou a balança comercial e deu origem a uma elite política e econômica, até a atualidade, em que o Brasil responde por cerca de um terço da produção mundial, o grão moldou paisagens, impulsionou a urbanização e consolidou cadeias logísticas e industriais. Hoje, em um mercado global cada vez mais competitivo, a produção nacional alia tradição e tecnologia para manter a liderança, ao mesmo tempo em que enfrenta pressões por sustentabilidade, rastreabilidade e adaptação às mudanças climáticas — fatores que podem redefinir o futuro do chamado “ouro verde”.
O auge do café no Império e na República Velha
Durante o Império, especialmente a partir da primeira metade do século XIX, o café consolidou-se como a base da economia brasileira. Conhecido como “ouro verde”, o grão tornou-se o principal produto de exportação do país, respondendo por grande parte das receitas externas e financiando a modernização do Estado. O Vale do Paraíba, entre Rio de Janeiro e São Paulo, destacou-se como o berço da expansão cafeeira, sustentado inicialmente pela mão de obra escravizada, que permitiu ganhos de escala e rápida acumulação de riqueza.
Na virada para a República, o café já havia ultrapassado a condição de simples commodity agrícola, tornando-se o alicerce de um modelo econômico e político. A elite cafeeira, concentrada sobretudo no interior paulista, ganhou poder e influência decisiva nas instituições, dando origem à chamada “política do café com leite”, que garantiu a alternância no comando do país entre São Paulo e Minas Gerais. O produto financiava bancos, ferrovias e obras de infraestrutura, reforçando a ligação entre o campo e os centros urbanos emergentes.
Com o avanço das lavouras para o Oeste Paulista, o ciclo cafeeiro ganhou novo fôlego. A região oferecia solos férteis e relevo favorável, possibilitando maior produtividade e permitindo o uso crescente da mão de obra assalariada após a abolição da escravidão em 1888. Esse movimento coincidiu com o aumento da imigração europeia, especialmente italiana, que se tornou fundamental para sustentar o crescimento do setor. As fazendas, cada vez mais integradas ao capital internacional, ajudaram a transformar São Paulo no motor econômico do país.
A infraestrutura criada para atender às demandas do café deixou marcas duradouras. A expansão das ferrovias ligando o interior ao porto de Santos garantiu escoamento ágil da produção e estimulou a urbanização das cidades paulistas. Ao mesmo tempo, o acúmulo de riqueza oriunda da exportação cafeeira deu suporte à industrialização incipiente do início do século XX. Assim, mais do que uma cultura agrícola, o café estruturou a economia nacional e influenciou diretamente os rumos políticos e sociais do Brasil até a crise de 1929, quando o cenário internacional expôs as fragilidades de uma economia excessivamente dependente de um único produto.
Crises e transformações
A prosperidade do café, contudo, mostrou-se vulnerável às oscilações do mercado internacional. Ainda no início do século XX, episódios de superprodução passaram a pressionar os preços no exterior, levando o governo a adotar políticas de valorização para sustentar a renda dos produtores. O Estado comprava estoques excedentes e controlava a oferta, numa estratégia que manteve temporariamente a estabilidade do setor, mas que também evidenciava a dependência do Brasil em relação a um único produto de exportação.
A crise de 1929, desencadeada pela quebra da Bolsa de Nova York, foi o ponto de inflexão mais drástico desse modelo. Com o colapso da demanda internacional, os preços do café despencaram e estoques se acumularam em níveis inéditos. Em uma tentativa desesperada de evitar a desvalorização, milhões de sacas foram queimadas ou lançadas ao mar, num episódio que simbolizou não apenas a fragilidade da economia cafeeira, mas também os limites da intervenção estatal diante de uma crise global.
A partir desse momento, a política econômica brasileira passou a buscar alternativas para reduzir a dependência do café. A diversificação produtiva ganhou força, com incentivos à industrialização nascente e ao desenvolvimento de outros setores agrícolas, como algodão e cacau. Esse movimento foi fundamental para pavimentar a transição de uma economia essencialmente agrária para uma estrutura mais complexa e urbana, ainda que o café permanecesse relevante.
O impacto da crise também se refletiu na esfera política. A derrocada do modelo cafeeiro enfraqueceu a elite paulista que sustentava a chamada “República do Café com Leite” e abriu espaço para a ascensão de novos grupos de poder. Getúlio Vargas, ao assumir a presidência em 1930, aproveitou a desarticulação das oligarquias rurais para centralizar decisões e inaugurar uma nova etapa da política e da economia brasileira. Assim, a crise do café não apenas redesenhou a pauta de exportações, mas também contribuiu para transformar as bases institucionais do país.
Café no pós-guerra e a modernização agrícola
No pós-guerra, o café brasileiro passou por uma fase de reorganização e modernização. A perda de protagonismo absoluto nas exportações levou produtores e governos a buscar novas fronteiras agrícolas, ampliando a presença do grão para além do eixo tradicional do Vale do Paraíba e do Oeste Paulista. Regiões como o Paraná e, posteriormente, o Cerrado Mineiro despontaram como polos dinâmicos, oferecendo solos férteis, topografia favorável e condições climáticas mais estáveis, fatores que possibilitaram maior produtividade e reduziram riscos de safras comprometidas.
O avanço tecnológico foi outro elemento central desse período. A mecanização do plantio e da colheita, somada à adoção de variedades mais resistentes, contribuiu para aumentar a eficiência produtiva e reduzir custos. Políticas públicas de crédito agrícola, pesquisa científica conduzida por instituições como o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e a criação de cooperativas fortaleceram a capacidade dos produtores de enfrentar as exigências de um mercado internacional em transformação. Essa modernização permitiu ao Brasil consolidar-se como um fornecedor confiável em meio à crescente competição global.
Ao mesmo tempo, a cadeia do café começou a se diversificar. Além da exportação em grão, ganhou espaço a torrefação nacional e, mais tarde, a industrialização de produtos derivados, como solúveis, ampliando a presença brasileira em segmentos de maior valor agregado. Essa estratégia não apenas assegurou maior participação no comércio mundial, mas também preparou o terreno para a valorização dos cafés especiais, que nas décadas seguintes se tornariam símbolo da capacidade do país de combinar escala, qualidade e inovação.
O café na economia contemporânea
No cenário contemporâneo, o Brasil consolidou sua posição como maior produtor e exportador de café do mundo, responsável por aproximadamente um terço da oferta global. Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Bahia formam o eixo central dessa produção, que abastece desde grandes tradings internacionais até pequenas torrefações especializadas. A escala e a diversidade geográfica garantem ao país não apenas competitividade em volume, mas também capacidade de atender diferentes nichos de consumo, do café em grão verde para exportação ao produto torrado e moído para o mercado interno.
A profissionalização da cadeia produtiva, apoiada em cooperativas e associações de produtores, contribuiu para elevar os padrões de qualidade e fortalecer a presença brasileira em mercados exigentes como Europa, Estados Unidos e Japão. Empresas nacionais e multinacionais investem em certificações, rastreabilidade e práticas sustentáveis, respondendo a uma demanda crescente por transparência e responsabilidade socioambiental. Esse movimento ampliou a reputação do Brasil não apenas como fornecedor de commodities, mas também como referência em cafés especiais.
Nos últimos anos, o mercado interno também se transformou em peça-chave da dinâmica do setor. O aumento do consumo de cafés gourmet, orgânicos e em cápsulas evidencia a sofisticação do paladar do consumidor brasileiro, que hoje rivaliza com países tradicionalmente reconhecidos pelo apreço à bebida. Essa mudança cultural impulsionou a criação de cafeterias especializadas, festivais e concursos, fomentando um ecossistema que vai além da produção agrícola e reforça a imagem do café como produto de identidade nacional.
Ainda assim, os desafios são significativos. Oscilações nos preços internacionais, custos de produção em alta e impactos das mudanças climáticas em áreas tradicionais de cultivo pressionam margens e exigem inovação constante. O setor precisa equilibrar escala e diferenciação para manter a liderança global, ao mesmo tempo em que busca novas oportunidades de valor agregado. Nesse contexto, o café brasileiro se apresenta não apenas como um pilar do agronegócio, mas também como um espelho das transformações econômicas e sociais do país.
Desafios atuais e perspectivas
O futuro do café brasileiro está intrinsecamente ligado à sua capacidade de adaptação. As mudanças climáticas já afetam áreas tradicionais de cultivo, com episódios de seca e geadas mais intensas comprometendo safras inteiras. Estudos apontam que, até meados do século, parte das regiões hoje dedicadas ao café arábica poderá se tornar inviável para a produção. Esse cenário pressiona produtores e pesquisadores a buscar novas variedades mais resistentes, além de técnicas de manejo que reduzam riscos e preservem a produtividade.
Outro desafio é a crescente concorrência internacional, sobretudo em segmentos de maior valor agregado. Países como Colômbia, Etiópia e Vietnã vêm ganhando espaço no mercado global de cafés especiais, disputando diretamente o consumidor que busca qualidade, origem controlada e sustentabilidade. Para o Brasil, manter a liderança nesse nicho depende não apenas da tradição e do volume, mas da capacidade de diferenciar sua produção, contando histórias ligadas ao terroir e ao trabalho dos pequenos e médios produtores.
A pressão por práticas mais sustentáveis também está no centro da agenda. O consumidor internacional exige cada vez mais rastreabilidade, redução da pegada de carbono e respeito a condições sociais justas na cadeia produtiva. Iniciativas de certificação, investimentos em agricultura regenerativa e parcerias com cooperativas são passos importantes, mas ainda há desafios de escala, especialmente entre pequenos produtores que enfrentam dificuldades para arcar com os custos dessas adaptações.
Apesar das incertezas, o setor enxerga oportunidades. A expansão do consumo em mercados emergentes, a diversificação de produtos, como cafés funcionais e prontos para beber, e o fortalecimento da imagem do Brasil como referência em inovação e sustentabilidade abrem caminhos para novas frentes de crescimento. A história mostra que o café sempre esteve no centro das transformações econômicas do país; no presente, ele se coloca novamente como termômetro da capacidade brasileira de combinar tradição e modernidade para enfrentar os desafios de um mercado em constante evolução.
Análises e dados de marcado
Nos anos recentes, os números do café mostram uma ambivalência típica de commodities maduras: queda no volume exportado, mas alto valor cambial impulsionado por preços internacionais. Entre janeiro e julho de 2025, o Brasil embarcou 23,7 milhões de sacas de 60 kg, uma retração de 16,4% em relação a igual período de 2024, segundo dados da Conab. Apesar disso, a receita cambial atingiu US$ 9 bilhões, 44,1% superior ao ano anterior — o maior valor já registrado para esse intervalo. Em agosto, mesmo com retração de volume (3,144 milhões de sacas, queda de 17,5% frente a agosto de 2024), a receita cresceu 12,7% para US$ 1,101 bilhão
Nos primeiros quatro meses de 2025, o café arábica foi dominante entre os tipos exportados, com remessas que somaram 11,709 milhões de sacas, contra 1,282 milhão para café solúvel e 807 mil para a espécie conilon/robusta. Os cafés diferenciados, com certificações ambientais, rastreabilidade ou qualidade, já respondem por 23,6% das exportações brasileiras no período, totalizando 3,259 milhões de sacas e gerando uma receita média por saca de US$ 433,73, que correspondeu a 27% da receita total do café no período. Quanto aos destinos, os Estados Unidos lideram entre os compradores, com 2,373 milhões de sacas compradas até abril, seguidos pela Alemanha, Itália, Japão e Bélgica.
No panorama da pauta exportadora nacional, o café não ocupa mais a posição de destaque absoluto como nos tempos do “ouro verde”, mas ainda mantém presença relevante. No primeiro semestre de 2025, o café não torrado representou 4,6% das exportações brasileiras, figurando entre os dez principais produtos exportados. Esse percentual coloca o café atrás de soja, petróleo bruto e minério de ferro, entre outros. É um indicativo claro da diversificação da pauta exportadora ao longo dos anos — mas também da capacidade do setor cafeeiro de se manter competitivo mesmo num ambiente de forte concorrência e pressões setoriais.
Para dar voz ao setor, representantes do mercado oferecem prognósticos mistos. Em relatório recente, o presidente do Cecafé descartou ideias de reexportar café por meio de países terceiros para driblar tarifas dos EUA, afirmando que tal manobra não é viável como estratégia consistente. á analistas projetam um movimento de aumento de produção em 2026, desde que as condições climáticas permitam floradas saudáveis, o que poderia aliviar parte da pressão sobre os estoques e reduzir os preços. No entanto, fatores como tarifas externas, clima extremo e competidores emergentes no mercado de cafés especiais impõem uma equação cada vez mais complexa para que o Brasil mantenha posição de liderança global baseada não só em volume, mas em valor e diferenciação.
Conclusão
Ao longo de mais de dois séculos, o café atravessou crises, reinvenções e ciclos de expansão que espelham a própria trajetória econômica do Brasil. De motor da economia imperial a produto sofisticado no mercado contemporâneo, sua história mostra a resiliência de um setor que, mesmo diante da diversificação da pauta exportadora nacional, segue entre os principais geradores de divisas do país.
Hoje, a força do café brasileiro não se mede apenas em volume, mas também na capacidade de inovar e agregar valor. Cafés especiais, orgânicos e certificados, aliados a práticas sustentáveis e à crescente profissionalização da cadeia produtiva, reforçam a imagem do Brasil como fornecedor confiável e diferenciado. Ao mesmo tempo, a pressão por rastreabilidade, as incertezas climáticas e a concorrência internacional mantêm o setor em constante estado de alerta.
O futuro do “ouro verde” dependerá da habilidade em equilibrar tradição e modernidade. Se, no passado, o café moldou ferrovias, cidades e elites políticas, hoje ele se reinventa como símbolo de qualidade, diversidade e sustentabilidade. Mais do que um produto agrícola, o café permanece como um termômetro do dinamismo do agronegócio brasileiro e um reflexo das transformações que projetam o país no cenário global.
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Raimundo Sirino Rodrigues Filho. Engenheiro Agrônomo, Pesquisador, Extensionista Rural e Professor Universitário. Graduado em Agronomia (UEMA); MSc. em Engenharia Agrícola – Irrigação e Drenagem (UFV) e DSc. em Agronomia – Solos e Nutrição de Plantas (UFPB).
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